Por Samira Salyorania Ribeiro de Souza
A história de Benigna Cardoso da Silva, a menina cearense assassinada brutalmente em 1941 e beatificada pela Igreja Católica em 2022, é atravessada por uma ausência perturbadora: não existe fotografia sua em vida. É a partir desse vazio que o artigo “Um rosto intrigante: retratos, ausências e apagamentos em torno da imagem pública da Beata Benigna”, de Joedson Kelvin Felix de Oliveira e Elane Abreu de Oliveira, constrói uma reflexão potente sobre imagem, memória e poder.
Publicado na Revista Mediação (v.27, 2025), no dossiê “Comunicação e Interseccionalidades: direitos, afetos, disputas e dissensos”, o texto investiga como diferentes tentativas de “dar um rosto” à beata, do retrato falado às reconstruções digitais em 3D, revelam disputas simbólicas que vão muito além da simples representação facial. A pergunta central não é apenas “como era Benigna?”, mas: quem decide como ela deve ser vista? O artigo parte do contexto do crime ocorrido em Santana do Cariri, interior do Ceará, quando Benigna, aos 13 anos, foi morta ao resistir a uma tentativa de violência sexual, crime hoje reconhecido como feminicídio. A comoção popular transformou a menina em símbolo de pureza e martírio muito antes de qualquer reconhecimento oficial.
Sem fotografia, o primeiro esforço visual surgiu em 2001, com um retrato falado elaborado a partir de relatos orais. Esse desenho trazia uma adolescente morena clara, de olhar melancólico e marcas de sangue, enfatizando o martírio. Mais tarde, a imagem foi reformulada e difundida em romarias, santinhos e materiais devocionais. Contudo, quando a Igreja assumiu formalmente o processo de beatificação, novas imagens passaram a ser encomendadas. A alegação era de que o retrato inicial “envelhecia” a menina. Surge então uma série de versões que suavizam traços, clareiam a pele e reforçam signos clássicos de santidade — lírios, luz difusa, expressão serena.
O ponto alto da análise está na leitura crítica dessas imagens. Amparados por autores como Lévinas, Rancière, bell hooks e Carla Akotirene, os pesquisadores mostram que o rosto não é apenas uma forma visual, mas um lugar ético e político. Ao comparar os relatos históricos, que descrevem Benigna como morena clara, franzina, sertaneja, com o retrato 3D divulgado oficialmente em 2022, o artigo aponta um possível processo de embranquecimento simbólico. A reconstrução técnico-científica, baseada em fragmentos do crânio e cruzamento fotográfico com familiares, resultou em um rosto iluminado, de traços delicados e suavizados, aproximando-se de padrões iconográficos europeizados.
Mais do que uma questão estética, trata-se de uma questão de poder: Quais traços são mantidos? Quais são atenuados? O que se apaga quando se busca um “rosto universal” de santidade? O texto sugere que, ao enfatizar pureza e castidade, certas dimensões da violência de gênero e das marcas sociais — raça, classe, território — são deslocadas ou suavizadas. O artigo argumenta que a construção da imagem pública tende a privilegiar a narrativa da pureza, neutralizando a memória da violência. Enquanto a primeira é amplamente celebrada na iconografia religiosa, a segunda tensiona estruturas patriarcais e exige enfrentamento político.
Ainda assim, os autores reconhecem que a memória popular resiste. O vestido vermelho de bolinhas brancas, usado por Benigna no dia da morte, tornou-se símbolo de luta contra o feminicídio no Ceará. Em 2019, a data de sua morte foi oficializada como Dia Estadual de Combate ao Feminicídio.
Talvez a conclusão mais provocadora do artigo seja esta: a insuficiência de um rosto único pode ser, paradoxalmente, sua força simbólica. Cada nova tentativa de representação — desenho, pintura, arte digital, reconstrução — revela não apenas a face da menina, mas os valores de quem a produz. A ausência de uma fotografia impede a cristalização definitiva da imagem e mantém aberto o campo de disputas.
Benigna torna-se, assim, mais do que um retrato. Torna-se fenômeno cultural, religioso e político.
